A GLORIOSA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA (XII)

   Em 30 de maio, p.p., faleceu, aos 108 anos, o tenente-coronel Nestor da Silva, notável herói da FEB. Já havíamos nos referido, noutro artigo desta série, a esse destemido militar, promovido de 2° sargento a 2° tenente, quando da batalha de Montese, por bravura pessoal em combate (!), após um telefonema do próprio general Mascarenhas de Moraes. Tivemos a oportunidade de conversar, por diversas vezes, na Capital Federal, com tão audaz febiano que, aos 47 anos de idade, foi brevetado paraquedista militar, tendo servido na Brigada de Infantaria Paraquedista. Tornamos a recordar de uma cerimônia ocorrida no Batalhão da Guarda Presidencial – Batalhão Duque de Caxias. Ao ser convidado para hastear o Pavilhão Nacional, o tenente-coronel Nestor desceu do palanque e se dirigiu ao local do hasteamento em passo acelerado e, após o ato, retornou ao seu lugar, igualmente em acelerado, e sob vibrantes aplausos. De outra feita, em uma palestra no Colégio Militar de Brasília, ao ser anunciado, o auditório prorrompeu em ressonantes e prolongados aplausos à sua pessoa. E com voz firme e serena, sem jactância, sem qualquer exibicionismo, na simplicidade que o caracterizava, narrou alguns de seus lendários feitos na Itália. Ele foi um belo e histórico exemplo de lídimo e heroico patriota, cuja memória necessita ser preservada!! Requiescat in Pace, bravíssimo tenente-coronel Nestor da Silva!!
    No artigo anterior, transcrevemos a patriótica “Proclamação” a oficiais e praças do Exército, de 21 de agosto de 1942, do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, na qual essa alta autoridade explicita, realistamente, a situação do país, após o afundamento de vários de nossos navios mercantes. E, a seguir, também transcrevemos outro documento do citado ministro, onde eram feitas severíssimas advertências aos que não colaborassem com as medidas de mobilização e preservação da ordem pública. E ele usou a expressão “inimigo interno” para bem caracterizar os maus patrícios. Isso é importante que se frise, pois testifica que tal expressão não foi “inventada” pelos que, como nós,  participamos da Contrarrevolução de 31 de março de 1964, nem pelos governos militares, como alardeiam, alhures, esquerdistas, ‘progressitas’, socialistas, comunistas, ‘et caterva’…
    Diga-se que àquela época de guerra, foram tomadas rigorosíssimas providências de defesa passiva, para a manutenção da integridade do território nacional e de nossa soberania. Tais medidas, que abrangiam obrigações civis e militares, foram assaz difundidas, máxime na Capital Federal (Rio de Janeiro) pelos meios de comunicação social – o rádio e os jornais. Urge lembrar das ações beneméritas das rádios cariocas “Tupi” e “Tamoio” e dos jornais “O Globo”, “Gazeta de Notícias”, “Diário Carioca”, “A Noite” etc, além da distribuição de cartazes impressos a todas as escolas e ao público em geral, alertando-os quanto a atos de espionagem e sabotagem, quiçá perpetrados pelos inimigos externo e interno (os traidores e vendilhões da Pátria), como o uso de ‘bombas de tempo’, ou ‘bombas-relógio’; assaltos e roubos de armas dos quartéis; descarrilhamento de trens; incêndios criminosos; empastelamento de órgãos da mídia; perseguição a descendentes de alemães e italianos, país afora: o Brasil ainda não declarara guerra ao Japão; práticas de pérfidas ações psicológicas etc, etc. Era um verdadeiro ambiente de beligerância, havendo, inclusive, instruções públicas para o uso de máscaras de gás. Ressalte-se que havia locais para o treinamento de tiro, inclusive em clubes esportivos do então Distrito Federal, como o Fluminense Futebol Clube, a entidade clubística que mais contribuiu para o esforço de guerra, como assinalam os cronistas daquele tempo. A vigilância, com vistas à repressão de ações subversivas e secretas como os ‘quebra-quebra’ e arruaças, era da responsabilidade do Departamento de Imprensa e Propaganda (o famoso DIP) do Estado Novo getulista, em constante ligação com as polícias civil e militar.
   Outrossim, apontamos a falsa afirmação de que navios de nossa frota mercante teriam sido afundados, propositadamente, pelos norte-americanos, a fim de forçar a entrada do Brasil na guerra. A esse respeito, citamos o excelente livro “Torpedo – O Terror no Atlântico. O Torpedeamento de Navios Brasileiros e o Patrulhamento do Atlântico Sul”, de autoria do Capitão de Marinha Mercante Marcus Vinicius de Lima Arantes, sem dúvida, a melhor e mais recente fonte de consulta sobre o tema. Na obra em comento, fundamental para a História Marítima Brasileira, há o ineditismo do relacionamento de todos os submarinos corsários que participaram das ações de torpedeamento, com as suas características técnicas, nomes e dados biográficos de seus comandantes, e, principalmente, de cada uma das torpes operações desencadeadas. A essas referências, gostaríamos de agregar a palavra insuspeita do general Plínio Pitaluga (como capitão, na FEB, foi o comandante do Esquadrão de Reconhecimento, a única tropa da Arma de Cavalaria a integrar a 1ª DIE), em um artigo que escreveu para “Letras em Marcha” (mai/jun de1998), de título “Torpedeamentos dos Navios Brasileiros, Uma Lenda Ainda em Voga!” Disse o general em certo trecho do escrito: “Trinta e quatro navios da Marinha Mercante e quatro navios da Marinha de Guerra, nas águas do Mediterrâneo, no Atlântico Norte e nas costas nacionais, sofreram as ações fatais da campanha inimiga, na ânsia de impedir os fluxos logísticos às nações aliadas e mesmo às necessidades domésticas. Hoje, ainda e infelizmente, a falta de maior atividade da nossa mídia, em fase que continua a desafiar a ignorância histórica, subsiste a lenda de que os submarinos aliados, americanos e ingleses, com a finalidade de forçar o Brasil a declarar guerra ao Eixo, teriam torpedeado os nossos navios, numa ação que se realizada por aliados tradicionais e leais, seria vil e covarde. Nada mais inverídico”. E afirmou por derradeiro: “Os nossos tradicionais aliados – americanos e ingleses -, jamais incorreriam num ato covarde, desumano e traiçoeiro, para levar o Brasil à guerra, quando nossa opinião pública, em sua grande maioria, se manifestara contrária às ditaduras e às ações e ameaças de falsos condutores dos destinos dos povos”. Na competente bibliografia apresentada no histórico documento, o general Pitaluga faz referência a renomados historiadores militares tais como o general Paulo de Queiroz Duarte (“Dias de Guerra no Atlântico Sul”); o almirante Arthur Oscar Saldanha da Gama (“A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial”), o capitão-de mar-e-guerra Dino Willy Cozza (“Navios Brasileiros Torpedeados”) e outros.  Um breve parênteses: a Lei 5315/1967 reconheceu os que participaram efetivamente em missões de vigilância e segurança do litoral, como ex-combatentes da II Guerra Mundial (ficou conhecida como “Lei da Praia”).  Atualmente, há duas já bem diminutas associações: a dos “Ex-Combatentes do Brasil” (os “boinas verdes”) e a dos “Veteranos da FEB” (os de “boinas azuis”). 
    As perdas humanas em consequência dos torpedeamentos foram de imensurável expressividade, chegando à cifra de 972 mortos (470 tripulantes e 502 passageiros). Observe-se que tal número foi maior do que o dobro de mortos da FEB (457 na campanha da Itália). A maior parte dos naufrágios se deveu a um único submarino alemão, o de prefixo U-507, na costa da Bahia e Sergipe, ao comando do muito cruel capitão-de-corveta Harro Schacht que lançava sempre dois torpedos sucessivos, um após o outro, não permitindo que tripulantes e passageiros abandonassem os navios. Entretanto, quiseram os fados que o U-507 ao emergir, em 13 de janeiro de 1943, a noroeste da cidade de Natal, fosse bombardeado e afundado por um avião ‘catalina’ dos EUA, não restando nenhum sobrevivente dos seus 54 tripulantes.
    Que façamos, por merecidíssima justiça, um registro altamente encomiástico à Marinha do Brasil, pelo patrulhamento permanente de nosso extenso litoral e, particular e inicialmente, na escolta até ao estreito de Gibraltar, do 1° escalão da FEB pelos contratorpedeiros “Marcílio Dias”, “Mariz e Barros” e “Greenhalgh”, juntamente com belonaves norte-americanas, e de lá até Nápoles com vasos de guerra ingleses. Os demais quatro escalões seguiram também sob a proteção dos mencionados navios de nossa Armada e dos EUA,  aos quais se juntou o cruzador “Rio Grande do Sul”. “Bravo Zulu”!                                   (continua)
    Coronel Manoel Soriano Neto – Historiador Militar

Fonte: A GLORIOSA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA (XII)