RS Notícias: A estupidez é o mal

 A maldade pode ser combatida. Já a estupidez não, porque é a condição de alguém que renunciou ao uso do próprio juízo, entregando sua capacidade de pensar e decidir

Por Alexandre Garcia

O passeio diário que faço nas redes sociais me mostra a falta de argumentos no debate político deste ano eleitoral. Há muitos adjetivos e interjeições, e poucos substantivos – vale dizer, pouca substância. Poucos têm dúvidas e muitos têm certezas. Não que isso seja novidade, mas o fenômeno se acentua no período em que deveriam ser debatidas ideias, mas se debatem pessoas. O previsível resultado é que vamos eleger, mais uma vez, temperamentos individuais, e não caminhos, princípios ou objetivos. Logo se percebe que há pouca inteligência nisso. Na polarização, os dois lados falam para os seus próprios pares; não estão abertos a convencer o outro lado. Ao contrário, distanciam-se cada vez mais por meio de ofensas. Com isso, não alteram posições de voto.

Não é consolo saber que até os alemães, diante do nazismo, padeceram dessa ausência de pensamento crítico. Naquela época, o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer identificou a estupidez como algo pior que a maldade. Na prisão, antes da execução, registrou sua constatação de que pessoas com nível universitário, religiosos, professores, pais de família, doutores, gente boa, aplaudiam Hitler. A maldade pode ser combatida; admite argumentos, porque quer algo e se revela. Já a estupidez não, porque é a condição de alguém que renunciou ao uso do próprio juízo, entregando sua capacidade de pensar e decidir a um líder, a um slogan, a uma palavra de ordem, a uma ideologia. E, quando isso acontece, não se pode apelar à razão nem manter um diálogo baseado em argumentos, porque essa pessoa já não possui razão própria: foi abduzida pela razão alheia, pela razão do líder. Quando alguém se junta a um grupo, quanto mais poderoso ele é, mais fácil se torna deixar de pensar por si mesmo. O grupo dá identidade; e, dentro dele, pensar por conta própria pode ter um custo. Assim, o estúpido se torna instrumento de outros sem perceber. Está feliz porque se sente parte de algo grandioso. Bonhoeffer pensava que não foram Hitler e Goebbels que destruíram a Alemanha, mas os milhões de alemães que se entregaram sem critério, sem fazer perguntas. Pior do que serem maldosos, eram obedientes sem pensamento próprio.

São pessoas que repetem palavras de ordem sem saber de onde vêm; que compartilham títulos sem ter lido o conteúdo; que odeiam indivíduos que nunca conheceram apenas porque alguém lhes disse que esse é o inimigo. Não são necessariamente más pessoas; são pessoas que deixaram de pensar por si mesmas – e não percebem isso. Ao contrário, sentem-se lúcidas, mais informadas que os outros. Bonhoeffer ensina que a estupidez não se cura com educação, informação ou argumentos. A pessoa decidiu que a aprovação do grupo vale mais que o próprio critério, e isso só se resolve com a coragem de libertar a própria mente. No Brasil, ocorre algo semelhante. Vamos nos adaptando à decadência para sobreviver. Normalizamos o anormal.

Acaba de ser divulgada a primeira encíclica do Papa Leão XIV, que aborda a inteligência artificial e a forma como a tecnologia influencia a própria cognição humana. Cada vez mais, as pessoas deixam de usar o intelecto, não precisam buscar conhecimento e passam a delegar tarefas à inteligência artificial. Está mais fácil deixar de pensar, ser passivo, seguir a massa, seguir a moda. Perdem-se a individualidade, a alegria de aprender e a capacidade de dar vida ao universo do cérebro – o verdadeiro produtor do prazer e da felicidade, de onde partem as decisões sobre quem serão os nossos governantes. O Papa pediu desculpas pelo fato de a Igreja ter possuído escravos e justificado a escravidão. A única liberdade que não podemos ter é a de escolher de quem seremos escravos.

Dizem que não existem coincidências. A véspera do lançamento da encíclica foi a Festa de Pentecostes. O Espírito Santo desceu em línguas de fogo sobre as cabeças dos apóstolos, e eles receberam o dom de falar todas as línguas. Que não deixemos a inteligência artificial – ou marqueteiros como Goebbels – substituir, em nosso cérebro, o fogo do juízo de nossas escolhas.

Correio do Povo

Fonte: RS Notícias: A estupidez é o mal

Deixe um comentário