Entre pedidos de churrasco e movimentações milionárias: como funcionava o grupo alvo de operação da Polícia Civil

Áudios obtidos mostram apenados organizando pedidos de comida enquanto investigação aponta esquema milionário de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico

Operação prendeu pelo menos 26 pessoas na manhã desta quinta-feira Foto : Polícia Civil / CP

 

Mesmo atrás das grades, integrantes de uma organização criminosa com atuação no Rio Grande do Sul mantinham uma rotina que ia da informalidade e da celebração, com encomendas de churrasco por telefone, até uma estrutura empresarial robusta que movimentava milhões de reais.

Em um dos áudios revelados pela investigação, apenados da Penitenciária Estadual de Porto Alegre (Pepoa) ligam para um estabelecimento para pedir churrasco, negociando detalhes da entrega e tentando informar o endereço “na frente do Presídio Central”.

Apesar de parecer banal à primeira vista, a situação expõe um dos principais elementos da investigação policial, que é a manutenção da comunicação de lideranças criminosas que, mesmo dentro do sistema prisional, ordenam a execução de atividades a operadores externos.

Deflagrada na manhã desta quinta-feira, a Operação Apakani, da Polícia Civil, mirou esta engrenagem que, além do tráfico de drogas, se sustentava de um esquema estruturado de lavagem de dinheiro. Conforme a polícia, ao menos 26 pessoas foram presas.

A investigação teve início em 2023, após a apreensão de 1,3 tonelada de maconha em Canoas. A partir desse ponto, segundo o delegado da Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro, responsável pelo caso, Antônio Carlos Silvano Ractz Júnior, o trabalho avançou para o rastreamento financeiro da organização.

“O que nós fazemos aqui é trabalhar com o crime antecedente, que, nesse caso, é o tráfico de drogas. A partir de uma grande apreensão, como essa de 1,3 tonelada, não é automático iniciar a investigação de lavagem. Existem outras apurações em andamento, e isso entra em uma espécie de fila. A partir daí, compartilhamos provas e passamos a ter uma série de medidas, como quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático”, explicou.

Segundo ele, o volume de dados exige tempo e análise detalhada até que haja base suficiente para uma ação de maior impacto. “São muitas provas, é um volume muito grande de informações. Isso demanda um tempo considerável de análise para que se possa, depois de quase dois anos, deflagrar uma operação com provas robustas, que permitam ao Judiciário decretar dezenas de prisões, mandados de busca e bloqueios patrimoniais”, afirmou.

Ao longo desse período, a Polícia Civil identificou a movimentação de mais de R$ 21 milhões ligados ao grupo. O dinheiro circulava por meio de contas de terceiros, empresas e operações fracionadas para dificultar o rastreamento.

Outro áudio obtido pela reportagem revela a orientação interna sobre como ocultar valores. “O negócio não é deixar muito dinheiro na conta. Isso aí o cara desenrola. Se tiver que pagar um contador depois pra comprovar, o cara paga. Mas tem que fazer um CNPJ no teu nome”, diz um dos interlocutores, ao mencionar a movimentação de até meio milhão de reais por mês.

Empresas de fachada e relação com facções

De acordo com a investigação, ao menos 21 empresas foram utilizadas no esquema, com atuação em diferentes áreas e presença em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Essas estruturas, conforme o delegado, tinham papel central na tentativa de dar aparência lícita aos recursos do tráfico. “É um modo de operar típico da lavagem de dinheiro. Há utilização de contas de terceiros, movimentações pulverizadas, fracionamentos, triangulações e uso de pessoas jurídicas, tanto reais quanto de fachada. Tudo isso com o objetivo de dificultar a identificação da origem ilícita dos valores”, detalhou.

Parte da organização seguia ativa mesmo com integrantes presos. Um dos alvos, considerado liderança de um dos núcleos do grupo, exercia controle direto das finanças de dentro do sistema prisional. “Esse indivíduo, mesmo recolhido, fazia o controle diário da movimentação financeira. Ele exigia comprovantes de transferências, acompanhava a compra e venda de drogas, valores arrecadados e até a utilização de armas de fogo. Era uma prestação de contas diária, com registros e organização”, relatou.

A atuação dentro e fora das cadeias reforça, segundo a Polícia Civil, a necessidade de atacar não apenas o tráfico em si, mas principalmente sua base financeira. “O combate efetivo ao tráfico de drogas passa pela lavagem de dinheiro. Não adianta apenas prender. É necessário descapitalizar, estrangular financeiramente essas organizações”, disse o delegado.

A operação desta quinta-feira cumpriu dezenas de mandados de prisão e busca na Capital, em Canoas, Cachoeirinha, Eldorado do Sul, Gravataí, Nova Santa Rita, Farroupilha, Gramado, Caxias do Sul e Santa Maria. Em Santa Catarina, as diligências ocorreram nas regiões Sul e da Grande Florianópolis, incluindo Criciúma, Balneário Rincão, Lauro Müller, Palhoça, São José e Florianópolis.

Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão na Penitenciária Estadual de Porto Alegre (Pepoa), Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), Instituto Penal de Charqueadas, Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos, Presídio Regional de Passo Fundo e Centro de Integração Social de Piraquara da Penitenciária Feminina do Paraná II.

Ao todo, foram cumpridos 28 mandados de prisão preventiva, cinco mandados de prisão temporária, 58 mandados de busca e apreensão, 58 bloqueios de contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas e 14 sequestros de veículos. Na fase sigilosa da investigação, já haviam sido implementadas 71 medidas cautelares, abrangendo afastamentos de sigilo bancário, fiscal, financeiro e telemático.

Apesar do impacto, a própria investigação aponta que a ofensiva atinge apenas uma parte da estrutura. “É mais um braço que está sendo atingido. O trabalho do Denarc nos últimos anos tem sido no sentido de identificar, prender e indiciar lideranças. Essa é mais uma investigação dentro de um cenário mais amplo”, afirmou.

Além disso, diligências investigatórias foram realizadas em empresas localizadas nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, com apoio das respectivas Polícias Civis. Para o cumprimento das medidas, foram empregados 249 policiais civis gaúchos e 50 policiais civis de Santa Catarina.

Embora a Polícia Civil não confirme, o Correio do Povo apurou que o grupo investigado é a facção “Os Manos”. Além da forte atuação no Estado, o grupo criminoso mantinha conexões com as organizações Primeiro Grupo Catarinense (PGC), de Santa Catarina, e com o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. As investigações seguem em andamento e novas fases não estão descartadas.

Pedido de churrasco expõe comunicação de dentro da cadeia

Um dos áudios obtidos pelo Correio do Povo revela apenados da Penitenciária Estadual de Porto Alegre (Pepoa) tentando fazer um pedido de churrasco por telefone, com entrega “na frente do Central”.

Na gravação, os apenados tentam fazer o pedido de picanha, mas, devido ao tempo necessário para preparação a entrega, optam por outras opções de carne. Em seguida, eles tentam informar o endereço da unidade prisional para concluir o pedido. Em determinado momento, um deles afirma: “No caso, a gente tá preso, moça”.

O conteúdo indica a possibilidade de uso de telefone por detentos dentro da unidade, além da manutenção de comunicação ativa com o exterior e a naturalidade com que os presos pediam comida.

A Polícia Penal foi procurada para se manifestar sobre o caso, mas não retornou o questionamento até o momento.

Correio do Povo

Fonte: Entre pedidos de churrasco e movimentações milionárias: como funcionava o grupo alvo de operação da Polícia Civil

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