A falta de informação e conhecimento ajuda a manipular o eleitorado, mantendo a dependência e o assistencialismo político
Alexandre Garcia
Os que costumam afirmar que o povo é sábio, poderiam garantir que, em consequência, o eleitor é sábio? Infelizmente, tenho que ser cético e ilógico, separando povo e eleitor. Porque o povo-eleitor em sua maioria é levado a ser massa de manobra pelos populistas. Conservar boa parte da população no escuro da falta de informação permite enfeitiçar o eleitor com quinquilharias, espelhinhos e promessas enganadoras. A falta de conhecimento facilita o controle pois atrapalha a percepção e o julgamento. Aí, investem na ignorância do votante para conquistar o poder. Por isso, os que têm o poder por objetivo não querem um ensino que liberte das amarras da ignorância. Quanto detém o poder, tudo fazem para não romper as amarras da dependência, alimentando o assistencialismo.
Não me refiro a uma libertação hipócrita, que troca a servidão do clientelismo pela servidão ideológica. Refiro-me à libertação individual, que o conhecimento oferece. Refiro-me a estimular o indivíduo a investir em si próprio para crescer e libertar-se dos que pensam por ele e o mantém jungido às benesses de quem as distribui. No meu primário no Grupo Escolar, no primeiro ano éramos diferentes. Havia o filho do carroceiro, o filho do hoteleiro, o filho do radialista. No quinto ano, em 1951, já éramos todos iguais, porque tínhamos o mesmo conhecimento. O bom ensino básico despensa cotas. O filho do carroceiro chegou a gerente da rádio onde meu pai trabalhava. A cor da pele dele era diferente da nossa, mas essa diferença não contava na medição de valores; aprendíamos para que servem a Constituição e os três poderes, o que é uma eleição, o que é uma federação, como funciona a democracia, decorávamos os deveres e direitos do brasileiro. Nosso símbolo era a Bandeira Nacional e o Hino.
Quase 80 anos depois, com todo avanço digital, com enciclopédia no celular, milhões de eleitores não têm noção de que são a origem do poder, que são mandantes dos seus mandatários eleitos, que os nomeiam pelo voto e os sustentam pelos impostos, e que os servidores públicos só existem para servir o povo. Observo a militância partidária e não vejo muita diferença de uma torcida de futebol. Visão lúdica e irresponsável, pois as consequências de más escolhas afetam a vida de todos.
Como se não bastasse, essa mesma massa de manobra também paga os dirigentes de partidos, seus jatinhos, as campanhas, com os impostos que nem sabe que está pagando, embutidos em tudo que compra. Neste ano são quase R$ 5 bilhões de fundo partidário eleitoral, que seus representantes no Congresso autorizaram a retirar da prestação de serviços como ensino, saúde e segurança, para uso político-partidário-eleitoral. Os filiados dos partidos é que deveriam, voluntariamente, arcar com esses gastos. E como se isso não bastasse, quando o presidente da República é candidato à reeleição, os gastos com propaganda decolam, embora a verdadeira propaganda de um governo sejam bons serviços públicos.
Quando precisa de propaganda, é porque os serviços são ruins. Neste ano reeleitoral, Lula já gastou R$ 255 milhões com propaganda (Bolsonaro R$ 80 milhões no mesmo período de reeleição) e tem mais R$ 584 milhões reservados. Tudo dos nossos impostos também. O eleitor tudo paga e ainda precisa acertar na roleta eleitoral, na esperança de que sua vida vá melhorar.
Correio do Povo
