A guerra entre Moscou e Kiev deixou de ser apenas um conflito entre dois países do Leste Europeu
Jurandir Soares
A guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, deixou de ser apenas um conflito entre dois países do Leste Europeu. Ao longo de mais de quatro anos, transformou-se no principal fator de reorganização militar do continente e recolocou na agenda europeia uma preocupação que parecia pertencer ao passado: a possibilidade de uma guerra de grandes proporções envolvendo diretamente países da Otan. O alerta ganhou nova força nesta semana com Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia. Ao apresentar a avaliação da Agência Europeia de Defesa, ela reconheceu que, apesar do aumento dos gastos militares, permanecem “grandes lacunas” nas capacidades de defesa europeias. A orientação é acelerar investimentos, produção e aquisição conjunta de armamentos para que a Europa alcance condições de prontidão até 2030.
GUERRA
A invasão russa da Ucrânia rompeu o equilíbrio de segurança construído na Europa depois do fim da Guerra Fria. É justamente nesse cenário que aparece o diagnóstico de Kallas. O primeiro relatório anual de prontidão da Agência Europeia de Defesa aponta deficiências em defesa aérea e antimísseis, artilharia, mísseis e munições, drones e sistemas antidrones, mobilidade militar, forças terrestres e capacidade naval, além de áreas estratégicas como espaço, inteligência artificial, guerra eletrônica e infraestrutura crítica.
A meta estabelecida para 2030 é ambiciosa: eliminar as principais deficiências, ampliar a aquisição conjunta e fortalecer a indústria militar europeia.
ALEMANHA
Nenhum país simboliza melhor essa mudança do que a Alemanha. Durante décadas, Berlim manteve uma política de contenção militar, mas a invasão da Ucrânia produziu a chamada Zeitenwende, uma mudança de época. Dias depois do ataque russo, o então chanceler Olaf Scholz anunciou um fundo extraordinário de 100 bilhões de euros para reconstruir as Forças Armadas alemãs. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, tornou-se uma das vozes mais contundentes na preparação para um eventual confronto. Em 2024, afirmou no Bundestag que a Alemanha deveria estar preparada para uma guerra com a Rússia até 2029.
INDÚSTRIA
A transformação alemã também passa pela indústria. Berlim está ampliando a produção de munições, drones, sistemas de defesa aérea e mísseis, ao mesmo tempo em que procura integrar a experiência adquirida pela Ucrânia no campo de batalha. Em junho deste ano, Alemanha e Ucrânia assinaram acordos para cooperação industrial em defesa antiaérea e antimísseis e para a produção conjunta de veículos terrestres não tripulados. Esse movimento mostra que a Europa não está apenas comprando armas para substituir estoques consumidos pela guerra. Está tentando reconstruir uma base industrial capaz de produzir em escala e de sustentar um conflito prolongado.
A Alemanha, inclusive, firmou com a americana Lockheed Martin um acordo para produzir mísseis ATACMS em território alemão.
OTAN
O aspecto mais preocupante é que a guerra já produz “respingos” sobre países que não participam diretamente dos combates.
A violação de espaços aéreos, a guerra híbrida e as ameaças contra estruturas de apoio à Ucrânia tornam mais difícil separar a guerra ucraniana de uma crise de segurança continental.
Nesta quarta-feira, a Rússia chegou a fazer uma ameaça nuclear explícita relacionada ao enclave de Kaliningrado, enquanto o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, reafirmou que a aliança é defensiva.
É nesse ambiente que a Europa se arma. Não significa que uma guerra direta entre Rússia e Otan seja inevitável. Significa, porém, que governos europeus já não querem depender exclusivamente da proteção americana e consideram necessário estar preparados para o pior cenário. A advertência de Kallas, portanto, é sobre a mudança de uma Europa que, durante décadas, acreditou que grandes guerras em seu território eram coisa do passado.
Correio do Povo