Já salientamos, anteriormente, a importância estratégica do Saliente Nordestino para a Segunda Guerra Mundial – “O Trampolim da Vitória”, como o presidente Franklin Delano Roosevelt, dos Estados Unidos, o cognominou; e de nossas ilhas, arquipélagos e atol oceânicos (Trindade, Martim Vaz, arquipélago de São Pedro e São Paulo e, em especial, a ilha, também arquipélago, que desde 1942, era o território federal de Fernando de Noronha e hoje pertence ao estado de Pernambuco e do Atol das Rocas, parte do estado do Rio Grande do Norte), para as grandes campanhas da China-Burma-Índia e as da África. O uso pelos Aliados da rota aérea Natal-Dakar era praticamente obrigatório para a transposição do Atlântico em direção à África. Tal rota, a menor linha reta geográfica que liga o continente americano a Dakar, capital do Senegal, foi decisiva para a Vitória, como vislumbrou, refrise-se, o presidente estadunidense. A base aérea da cidade do Natal era a segunda em dimensões mundiais, somente menor do que a de Nova Iorque, e de lá partiam milhares de aeronaves rumo ao inimigo no continente africano. Os potiguares se jactam, com justa e orgulhosa razão, de serem os brasileiros “que mais de perto viram a guerra” (como podemos constatar ao nosso tempo de comandante do 16° Batalhão de Infantaria Motorizado, “Batalhão Itapiru”, aquartelado em Natal, nos anos de1989 e 1990). À noite, eram obrigatórios os ‘blackouts’ (apagões) no Distrito Federal, nas capitais e em outras cidades, particularmente nas nordestinas, em face da eventualidade de ataques aéreos e desembarques anfíbios, eis que havia, torne-se a dizer, poderosas tropas alemãs no norte da África. Aos faltos de patriotismo e vendilhões da Pátria que negam o nosso hercúleo esforço de guerra e a grandeza e perpetuidade da FEB, lembremos das afirmações de Cordell Hull, Secretário de Estado dos EUA e Prêmio Nobel da Paz, em 1945, contidas em suas “Memórias”: “Não fossem as bases brasileiras, não teria sido possível ajudar os ingleses no Egito, como fizemos no momento crucial da batalha de El Alamein………..Enviou, ainda, o Brasil, uma força expedicionária [anote-se que o Brasil e o México foram os únicos países da América Latina a participar, efetivamente, da guerra]. Contribuiu sua Marinha de Guerra para o patrulhamento do Atlântico. No esforço para abastecer os Estados Unidos, perdeu o Brasil parte considerável da sua Marinha Mercante”.
A GLORIOSA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA (XVIII)
O imenso sacrifício imposto aos brasileiros que integraram a Força Expedicionária, a qual portou-se mui airosamente no sanguinolento conflito, não foi, infelizmente, entendido e recompensado como deveria, quando a guerra acabou – “Finish War!”, como exclamavam, em altas vozes, ingleses e americanos, e “È Finita la Guerra!, Viva la Libertad!”, que era o espontâneo brado e “saluto” de celebração dos sofridos italianos. Acrescente-se que a maior colônia italiana fora da Itália (por volta de 25 milhões de brasileiros “oriundi”), encontra-se no Brasil; e lá, são numerosos os históricos “Monumenti Ai Caduti” e “Ai Milite Ignoto” (Monumentos aos Caídos e ao Soldado Desconhecido). No centro-norte italiano, especialmente, região onde a FEB combateu, ela é excelsamente lembrada e reverenciada pela população local, por meio de monumentos cívicos, estátuas, capelas, praças etc., e pelo venerável Cemitério de Pistóia. Assim como em tocantes solenidades (particularmente em Montese, com a participação de crianças que cantam, com invulgar entusiasmo, a Canção do Expedicionário), cultuando-se, destarte, para todo o sempre, a memória de heróis brasileiros….
O nosso país foi excluído, injustamente, da Conferência de Reparação de Guerra de Paris, e, ‘ipso facto’, não recebeu qualquer indenização pelos prejuízos sofridos, conforme havia sido acordado nas Conferências de Ialta e Potsdam; perdemos antigos mercados europeus, não conseguimos estabelecer novos e continuamos sendo meros e tradicionais exportadores de algodão, cacau, etc., e, principalmente, de café. E mais: além da desmobilização da FEB, de forma prematura e às pressas, sem que se considerassem as vultosas perdas humanas e materiais da Marinha Mercante, – que já abordamos nesta série -, pagamos quase dois bilhões de marcos (!) pela compra de material bélico que não foi entregue pela Alemanha. As despesas, num total de 361 milhões de dólares (!) foram totalmente pagas, sendo certo que a última prestação foi saldada em 1° de julho de 1954. Apesar de nossa frágil economia, igualmente contribuímos com quase 1 bilhão de dólares (!) para a criação do Banco Interamericano de Reconstrução (que, evidentemente, nada tinha a ver conosco). Apesar dos créditos em moeda forte que foram congelados particularmente na “Wall Street” norte-americana e na “City of London”, provindos de exportações feitas quando e logo após a guerra, muito disso foi por nós malbaratado, irresponsável e imprevidentemente, em importações; e parte dos saldos também foi empregada na recuperação de empresas estrangeiras aqui instaladas… Outrossim, nos ofereceram a missão pós-guerra de “tropa de ocupação” na Áustria e na Polônia, o que não aceitamos, até porque a FEB deu início à sua desmobilização, ainda com as tropas na Itália… Em terminativa Conclusão, assevere-se que após o “V Day” – “Dia da Vitória” – e de sermos um dos vencedores da guerra, dela saímos, economicamente, pior do que os vencidos. (Esses assuntos, desafortunadamente, são escamoteados e não bem estudados pelos brasileiros…). Àquela época, houve muitas e por demais desnecessárias importações de automóveis, uísque, geladeiras, rádios, remédios, bijuterias, relógios, brinquedos e por aí vai… Lembramos – éramos criança na bela e tranquila cidade de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção – das inúmeras quinquilharias importadas que chegavam aos borbotões ao Brasil daquele tempo que já bem longe vai. Ainda sentimos saudade das bugigangas como o “ioiô’; dos brinquedos e objetos de galalite (cavalinhos, gaitas, faqueiros, copos e bonecas embutidos uns nos outros etc., etc.); dos lança-perfumes (inicialmente de vidro, os ‘cloretil’ ou ‘cloroetil’ e depois de metal, das marcas ‘Rodo’ e ‘Rodouro’); das galenas e dos rádios ‘To-Day’, ‘Admiral e ‘Zenith’; das vitrolas ‘Philco’ e ‘Philips’; das geladeiras ‘Frigidaire’ e ‘GE’ – ‘General Electric’ (a oportunista propaganda desta última afirmava que “Geladeira começa com GE “); dos cigarros ‘Continental’, ‘Hollywood’ e ‘Astória’, da Companhia Souza Cruz; ‘Camel’; ‘Free’; ‘Chesterfield’; ‘Marlboro’; ‘Pall Mall’ e ‘Lucky Strike’ – estes eram oferecidos na Itália, pelos norte-americanos aos brasileiros (obteve grande repercussão uma das cruzadas patrióticas da primeira dama, dona Darcy Vargas, intitulada “Cigarros para o Soldado Desconhecido”); da utilização de luxuosas charretes puxadas a cavalo ou a carneiro (eram as menores, para crianças e jovens), em vez do automóvel; do uso do gasogênio – um gás combustível advindo da queima de carvão – em automóveis, ônibus, caminhões e caminhonetes, por causa do “racionamento de guerra”; e do carbureto para a solda de diversos materiais. Todos os fogões eram à lenha, na própria Capital Federal (!) e foi muito utilizado o gasogênio ao invés do petróleo e da gasolina. E o que dizer das antigualhas, muitas aqui já existentes, dos carros ‘Chevrolet’ (com destaque para os enormes sedãs ‘Impala’ e ‘Bel Air’); ‘Ford’ e ‘Ford Prefect’; ‘Studebaker’; ‘Oldsmobile’; ‘Buick’; ‘Cadillac’; ‘Mercury’; ‘Humber’; ‘Nash’; ‘Austin’; ‘Plimouth’; ‘Chrysler’; ‘Hillman’; ‘Kombi’; ‘Javelin’; ‘Morris ‘; ‘Citroen’ (cuja propaganda midiática, os “reclames”, diziam “que não viram nem derrapam”); do utilíssimo jipe ‘Willys’, afora os ditos ‘carros conversíveis’ – os ‘cabriolets’ ou ‘cabriolés’, de capota retrátil de lona branca, a qual, se aberta, deixava a cabine exposta à chuva e ao vento; e do pequeno ‘Romi-Isetta’ (o primeiro carro de passeio produzido no Brasil!), além do ‘Volkswagen’ (o tão conhecido VW ‘fusca’), ambos, novos modelos que vieram ao depois, para não lembrar da amarga sina do nosso ‘Gurgel’; alguns desses veículos eram bem grandes e beberrões de gasolina, possuíam pneus de faixa branca, que os zelosos donos lavavam com água morna e sabão, e, em cima do capô, exibiam uma interessante miniatura de metal (nós, meninos, reconhecíamos, pela vista e à distância, as inúmeras marcas de carro existentes); da penicilina, antibiótico recém-descoberto e que substituiu antiquados e dolorosos tratamentos na cura de diversas doenças, como as sexualmente transmissíveis; da Coca Cola (ficou famosa a deslumbrada “geração Coca-Cola”); dos filmes ‘hollyoodianos’ de ‘guerra’, de ‘cowboy’, de ‘Tarzan’, ‘de aventura’, românticos e musicais; das novas cervejas; do ‘sorriso Colgate’; dos sabores, como o hortelã, dos gostosos ‘chicles’ ou ‘chicletes’ da marca ‘Adams’, da Companhia de Thomas Adams, seu fundador e dono; era mandatória a audiência radiofônica diária do saudoso “Repórter Esso”, melhor dizendo, “O Repórter Esso”, que era anunciado pelo som forte e estridente de trombetas; da leitura de “Seleções do ‘Reader’s Digest”, ou simplesmente “Seleções”, versão brasileira, desde 1942, da famosa revista mensal norte-americana “Reader’s Digest”, a mais lida no mundo e que sempre exaltava os EUA e seus heróis de guerra; e também do canto e dança da inesquecível cantora e atriz Carmen Miranda, “A Pequena Notável” ou “Brazilian Bombshell” (apesar de haver nascido em Portugal); do distintíssimo e grande benemérito estadunidense Walt Disney, criador do folclórico e gaiato papagaio verde-amarelo “Zé Carioca”. Disney foi o principal difusor, em nossa terra, do “american way of life”, e, primordialmente, da “política de boa vizinhança”, do presidente Franklin Roosevelt, capitaneada e incentivada pelo grande empresário e futuro vice-presidente dos EUA, Nelson Rockefeller (falava-se, maldosamente, que era “a completa americanização” de todo um continente…). Tal política foi a precursora do panamericanismo. E vão se perdendo nas brumas dos tempos, outras relembranças de nosso Brasil ronceiro, assaz atrasado, subdesenvolvido, assolado pelo ‘colonialismo ou satelitismo cultural’ da década de 1940. Para ventura nossa, a tardia industrialização chegou, apesar de muito lentamente, com o fito de reverter o “status quo” daquela quadra tão difícil; e o retorno da FEB potencializou essa alvissareira mudança, em todas as expressões do Poder Nacional. A propósito, do alto de sua vasta e poliédrica cultura geral e profissional, eis o que disse o saudoso general Octavio Costa a respeito da conjuntura nacional de então, in “Trinta Anos Depois da Volta”: – Citação: “Éramos uma nação sem motivação psicológica consistente e duradoura, sem confiança em si mesma, enganada pelo ópio do ufanismo ilusório ou deprimida pelo desalento subserviente e imobilista. No país dos basbaques, onde tudo vinha de fora, e de fora tudo se copiava, ainda não tinha ido mais fundo, na sensibilidade nacional, o safanão da Semana de Arte Moderna de 1922, na rotina de nossa macaqueação cultural. Eram tempos de cantar tango e bolero, de encenar Paradas da Raça e de fazer anauê. E, enquanto isso, o governo alemão hitlerista estimulava, nos três estados meridionais brasileiros, o desenvolvimento de um quisto racial, que pudesse, em futuro próximo, funcionar à maneira dos sudetos da Tchecoslováquia, em favor das ações pangermanistas. Havia cidades e regiões em que o ensino era feito somente em idioma alemão, e o III Reich estimava contar, em território brasileiro, com novecentos mil compatriotas e seus descendentes”. E mais à frente: “Tudo nos vinha de fora: o trem, o automóvel, o navio, o avião e o trator. Produto nacional, de escassa manufatura, feito aqui, era sinônimo de falta de qualidade. Não tínhamos refinaria, nem siderurgia, nem grandes hidrelétricas. O Brasil continuava sendo o eterno país do futuro”. – Fim da Citação. Era o Brasil, no exagerado dizer de Monteiro Lobato, “a Botocúndia do Jeca Tatu”…
Todavia, como afiançaram/afiançam renomados sociólogos, historiadores e outros cientistas sociais, o lastimável estado de coisas de antes, durante e logo depois da guerra, foi mudando, pouco a pouco, por conta, é bom repetir-se, do regresso e da fundamental e determinante influência da FEB, que, inclusive, redundou na queda da ditadura de Getúlio Vargas. Os retrógrados e pessimistas sentimentos, hábitos, usos e costumes brasileiros foram, de fato, profundamente modificados. (continua)
“Quem cai na luta com glória
Tomba nos braços da História
No coração do Brasil!”
(do poema “O Século”, de Castro Alves, 1865)
Coronel Manoel Soriano Neto- Historiador Militar
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