O preço do passado colonial

 Alto custo de vida, salários que não acompanham a inflação, desemprego e precariedade dos serviços públicos geram onda de protestos na Europa

Jurandir Soares

A onda de protestos que toma as ruas de diversas cidades europeias, com destaque para a França, revela uma crise que vai muito além da insatisfação dos jovens com as dificuldades de ingressar no mercado de trabalho. O alto custo de vida, os salários que não acompanham a inflação, o desemprego e a precariedade dos serviços públicos, sobretudo saúde e educação, alimentam uma revolta que ameaça transformar o descontentamento social em confrontos de consequências imprevisíveis.

A França tem uma longa tradição de manifestações populares, geralmente pacíficas, como instrumento de pressão sobre os governos. Entretanto, a violência de alguns episódios recentes evoca as jornadas de maio de 1968, quando estudantes e trabalhadores desafiaram as estruturas políticas e sociais do país. Agora, a chamada Geração Z, formada pelos jovens que tentam conquistar seu espaço na sociedade, volta a colocar em xeque um modelo que promete oportunidades, mas nem sempre consegue oferecê-las.

DESCONTENTAMENTO

As reivindicações imediatas são conhecidas: moradia cara, salários insuficientes, poucas perspectivas profissionais e serviços públicos pressionados pela falta de recursos. O problema é agravado pelo desemprego, que atinge especialmente os jovens e dificulta sua independência financeira. A revolta, portanto, não pode ser explicada por uma única causa, nem reduzida a uma questão de segurança pública. Há um sentimento de exclusão que desafia a capacidade de resposta dos governos.

HERANÇA

Na França, entretanto, a questão social se mistura a uma história colonial que deixou marcas profundas. Durante o século XX, o país perdeu o controle sobre territórios na África, em um processo que teve um marco em 1960, conhecido como o Ano Africano, quando 17 países africanos conquistaram a independência. Entre eles estavam antigas colônias francesas. A Argélia tornou-se independente em 1962, após uma guerra particularmente sangrenta, enquanto Marrocos e Tunísia haviam conquistado a independência em 1956.

IMIGRAÇÃO

Os laços históricos, linguísticos e econômicos favoreceram a migração de populações dessas regiões para a França, que necessitava de trabalhadores para reconstruir sua economia e sustentar o crescimento do pós-guerra. Vieram trabalhadores, formaram-se famílias e nasceram novas gerações. Hoje, muitos descendentes de imigrantes são franceses, mas continuam enfrentando barreiras de acesso ao emprego, discriminação e dificuldades de integração. A partir dos anos 2000, conflitos no Oriente Médio, como os da Síria, do Iraque e do Afeganistão, além da pobreza, da fome e das crises ambientais africanas, ampliaram os fluxos migratórios.

Assim, se já havia um problema de adaptação dos oriundos das ex-colônias, o problema se tornou muito mais grave com a chegada dos migrantes do Oriente Médio. Em sua grande maioria muçulmanos, não se adaptavam à cultura francesa e procuravam conservar seus próprios costumes sociais e religiosos. Chegou a haver problemas em escolas públicas com meninas que se negavam a abandonar o véu islâmico. Deu-se aí um choque maior entre os que chegavam e os nativos.

DESAFIO

A pressão sobre a habitação, as escolas, os hospitais e o mercado de trabalho exige políticas públicas consistentes. Mas seria injusto atribuir aos descendentes de imigrantes a responsabilidade pela crise ou presumir que todos os manifestantes tenham essa origem. A França enfrenta problemas econômicos, desigualdades e falhas de integração que atingem diferentes parcelas da população. Seu passado colonial ajuda a compreender a complexidade do presente e as dificuldades decorrentes, mas não explica tudo. O verdadeiro desafio é construir uma sociedade capaz de oferecer oportunidades, combater a discriminação e preservar os serviços públicos. E este desafio não está sendo vencido pelas autoridades europeias, especialmente as da França.

Correio do Povo

Fonte: O preço do passado colonial

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