Fonte: Fachin assume relatoria de caso sobre conversas entre Moraes e Vorcaro
Autor: Lucio Borges
Miguel de Cervantes Saavedra – Vida, obra e o legado de Dom Quixote
O maior escritor da língua espanhola
Miguel de Cervantes Saavedra (29 de setembro de 1547 – 22 de abril de 1616) foi um escritor espanhol amplamente considerado o maior da língua espanhola e um dos romancistas mais importantes do mundo. Sua obra-prima, Dom Quixote, em duas partes (1605 e 1615), é considerada o primeiro romance moderno e já foi eleita por diversos autores como o “melhor livro de todos os tempos”. Não por acaso, o espanhol é frequentemente chamado de “a língua de Cervantes”.
Apesar da fama póstuma, Cervantes viveu boa parte da vida na pobreza e na obscuridade, o que fez com que muitas de suas primeiras obras fossem perdidas.
Origens e primeiros anos (1547-1566)
Geralmente aceita-se que nasceu em Alcalá de Henares, Castela. Era o segundo filho do barbeiro-cirurgião Rodrigo de Cervantes e Leonor de Cortinas. A família mudava-se constantemente por causa de dívidas do pai. Leonor sustentou a casa quando Rodrigo foi preso por dívidas entre 1553 e 1554.
Em 1569, um mandado de prisão por ferir Antonio de Sigura em um duelo teria obrigado Cervantes a deixar a Espanha para Roma, onde trabalhou na casa do cardeal Giulio Acquaviva.
O soldado, Lepanto e o cativeiro (1566-1580)
Em 1570 alistou-se na Infantaria da Marinha Espanhola. Em 7 de outubro de 1571, a bordo da galé Marquesa, participou da Batalha de Lepanto contra o Império Otomano. Mesmo com malária, comandou um esquife de 12 homens. Foi gravemente ferido: dois tiros no peito e um no braço esquerdo, que ficou inutilizado. Daí o apelido que o acompanharia: “El manco de Lepanto” (O maneta de Lepanto). Ele diria depois que perdeu “o movimento da mão esquerda para a glória da direita”.
Depois de seis meses no Hospital de Messina, voltou ao serviço e participou de expedições a Corfu, Navarino, Tunes e La Goulette.
Em setembro de 1575, voltando para a Espanha na galé Sol com o irmão Rodrigo, foi capturado por piratas berberes e levado para Argel. Rodrigo foi resgatado em 1577, mas a família não conseguiu pagar o resgate de Miguel. Após quase cinco anos e quatro tentativas de fuga, foi libertado em 1580 pelos padres trinitários, ordem especializada em resgatar cativos cristãos.
Vida posterior, casamento e dificuldades (1580-1616)
Sem seus protetores Dom João de Áustria e o Duque de Sessa, já mortos, Cervantes teve dificuldade para encontrar emprego. Trabalhou como agente de inteligência no Norte da África entre 1581 e 1582.
Em 1584 casou-se em Esquivias com Catalina de Salazar y Palacios, então com entre 15 e 18 anos. Pouco antes, em novembro de 1583, nascera sua filha ilegítima Isabel, fruto da relação com Ana Franca, esposa de um estalajadeiro de Madri. Ele reconheceu a paternidade.
Em 1587 tornou-se comissário de abastecimento das Galés Reais em Sevilha, comprando trigo e azeite para a Armada Invencível. Em 1592 virou cobrador de impostos e chegou a ser preso brevemente por irregularidades nas contas. Teve vários pedidos negados para cargos na América Espanhola.
De 1596 a 1600 viveu em Sevilha e em 1606 fixou-se em Madri até a morte. Recebeu apoio do Conde de Lemos. Em 1613 ingressou na Ordem Terceira Franciscana.
Morreu em 22 de abril de 1616 em Madri – 23 de abril é a data de seu sepultamento, e por coincidência também a data de morte de William Shakespeare pelo calendário juliano. Hoje, 23 de abril é o Dia Mundial do Livro. Foi enterrado no Convento das Trinitárias Descalças. Seus restos desapareceram em obras em 1673 e só foram redescobertos e confirmados em 2015, por equipe liderada pelo antropólogo forense Francisco Etxeberria.
Carreira literária e legado
Cervantes afirmou ter escrito mais de 20 peças de teatro, como El trato de Argel, sobre o cativeiro, e La Numancia. Seu primeiro romance importante, A Galateia (1585), um romance pastoril, teve pouca repercussão.
A virada veio em janeiro de 1605 com El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha. Ao parodiar os romances de cavalaria, Cervantes criou um retrato realista da vida com uso da fala cotidiana, que foi sucesso imediato. Dom Quixote e Sancho Pança já apareciam em festas para o nascimento do futuro Filipe IV em abril de 1605.
A popularidade gerou pedidos de continuação e uma sequência apócrifa em 1614, de Alonso Fernández de Avellaneda. Cervantes respondeu com a segunda parte autêntica em 1615, mais sofisticada e filosófica.
Outras obras fundamentais:
- Novelas Exemplares (1613) – 12 contos, incluindo “La gitanilla”, “Rinconete y Cortadillo”, “El licenciado Vidriera” e “El coloquio de los perros”
- Ocho comedias y ocho entremeses nuevos (1615) – com oito comédias e oito entremezes como “El juez de los divorcios” e “El retablo de las maravillas”
- Viagem do Parnaso (1614) – seu poema mais ambicioso
- Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617) – póstumo
Cervantes foi redescoberto por ingleses no século XVIII, traduzido para todos os principais idiomas em mais de 700 edições. Influenciou de Freud – que aprendeu espanhol para lê-lo no original – a Carlos Fuentes, que o colocou ao lado de Homero, Dante e Shakespeare na tradição narrativa.
Não existe retrato autenticado. O mais associado a ele é atribuído a Juan de Jáuregui (c. 1600). Sua imagem aparece nas moedas espanholas de 10, 20 e 50 centavos de euro e foi selecionada pelo Banco Central Europeu para futuras notas de 50 euros.
A Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes é hoje o maior arquivo digital de obras em língua espanhola.
Fonte: Miguel de Cervantes Saavedra – Vida, obra e o legado de Dom Quixote
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Luís de Camões – Vida, obra e o poeta nacional de Portugal
Luís Vaz de Camões (c.1524 – 10 de junho de 1579/80) foi um poeta, dramaturgo e soldado português, considerado o poeta nacional de Portugal, o maior nome do Renascimento português e o autor mais importante da língua portuguesa. Sua obra-prima é a epopeia Os Lusíadas (1572).
Pouco se sabe com certeza sobre sua vida. Acredita-se que nasceu em Lisboa, por volta de 1524, em família da pequena nobreza. Teria recebido sólida formação clássica, com domínio do latim e conhecimento de literatura antiga e moderna. Pode ter estudado em Coimbra, mas não há registro. Frequentou a corte de D. João III, iniciou-se na poesia lírica e levou, segundo a tradição, uma vida boêmia e turbulenta, com amores conturbados.
Conta-se que se autoexilou para o norte da África como militar, onde perdeu o olho direito em combate. De volta a Lisboa, feriu um servo do Paço, foi preso e perdoado, partindo para a Índia em 1553, na armada de Fernão Álvares Cabral.
O Oriente e Os Lusíadas
Em Goa, alistou-se ao serviço do vice-rei, combateu no Índico, no Mar Vermelho e em Ormuz. Nesse período teria começado a escrever Os Lusíadas. Teve vida instável: foi preso por sátiras, nomeado Provedor dos Defuntos e Ausentes em Macau (1562-1565), onde a tradição diz que escreveu parte da epopeia na Gruta de Camões. Na volta para Goa naufragou na foz do rio Mekong, salvando, segundo o relato, apenas a si mesmo e o manuscrito. O episódio inspirou as redondilhas “Sôbolos rios que vão”.
Em Moçambique, em 1568, foi encontrado por Diogo do Couto em extrema pobreza. Amigos pagaram suas dívidas e ele retornou a Lisboa em 1570, na nau Santa Clara.
Em Portugal apresentou Os Lusíadas a D. Sebastião, que autorizou a publicação em 1572 e lhe concedeu uma pensão anual de 15 mil réis como cavaleiro fidalgo.
Viveu seus últimos anos com dificuldades financeiras em um quarto perto da Igreja de Santa Ana, em Lisboa. Adoeceu durante a peste de 1580 e morreu em 10 de junho de 1580, sendo enterrado em cova rasa. Seus restos mortais nunca foram identificados com certeza após o terremoto de 1755. A ossada depositada no Mosteiro dos Jerónimos em 1880 provavelmente não é a dele.
Obra
Camões atuou em quatro gêneros:
1. Épico: Os Lusíadas (1572) – É a epopeia nacional. Em 10 cantos, 1102 estrofes e 8816 versos decassílabos em oitava-rima, narra a viagem de Vasco da Gama à Índia e a história de Portugal, fundindo mitologia greco-romana e fatos históricos. Começa com “As armas e os barões assinalados”. É ao mesmo tempo celebração, crítica de costumes e reflexão sobre o império, com episódios marcantes como Inês de Castro, o Velho do Restelo e o Gigante Adamastor.
2. Lírico: Rimas (1595, póstumo) – Reúne sonetos, canções, odes, elegias, éclogas e redondilhas. O soneto “Amor é fogo que arde sem se ver” sintetiza seu estilo: paradoxal, maneirista, entre o idealismo platônico e a experiência concreta do sofrimento amoroso. Foi mestre do soneto petrarquista e da redondilha tradicional.
3. Teatro: Anfitriões (1587), Filodemo (1587) e El-Rei Seleuco (1645) – Comédias em estilo vicentino que unem modelo clássico e nacional.
4. Cartas em prosa e verso – Revelam um Camões irônico, desenganado e reflexivo.
Sua linguagem introduziu dezenas de latinismos (aéreo, diáfano, excelente) e fixou o português moderno. Se na juventude foi mais clássico e equilibrado, evoluiu para um estilo maneirista: inquieto, contraditório, dramático e precursor do Barroco.
Símbolo nacional e influência
Reconhecido já em vida por nomes como Tasso e Cervantes, foi traduzido precocemente para o espanhol (1580), inglês, francês e alemão. Influenciou Milton, Goethe e toda a literatura brasileira, de Bento Teixeira e Gregório de Matos a Drummond.
No Romantismo, sua biografia foi mitificada como a do gênio incompreendido. Em 1880, o tricentenário de sua morte foi celebrado como festa de reafirmação nacional. Durante o Estado Novo foi usado como instrumento de propaganda. Desde 1977, o dia de sua morte, 10 de junho, é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O Prêmio Camões (1989) é o maior prêmio literário da lusofonia.
Hoje, cratera em Mercúrio e asteroide levam seu nome, e seu rosto estampou moedas, selos e monumentos. É unanimemente considerado um dos maiores poetas da tradição ocidental.
Fonte: Luís de Camões – Vida, obra e o poeta nacional de Portugal
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